domingo, 1 de julho de 2007


Sentados na varanda.

Tarde morna, morosa...

E o silêncio.

Você não fala, não está.

Eu não falo, mas eu estou, eu sempre estive. Sempre estive nessa casa, nessa varanda a sua espera. Antes de saber que você existia eu já estava aqui. No jardim, na varanda, preparando a casa para sua chegada. Já havia retirado da velha cômoda empoeirada grandes porções de um sentimento esquecido, reprimido, sufocado e, ainda assim, tão lindo e infinito. Estava na sala de estar preparando arranjos com rosas amarelas pra te receber.

E eis que você chega.
Mãos vazias (o coração também?)... Mas não, não percebi isso de imediato... Somente agora, sentada na varanda ao teu lado, moendo e remoendo os fatos... pensamentos...Todas as flores que tenho são as que eu mesma plantei. Quisera eu ter ganho ao menos uma.

Em verdade você não quis entrar, não quis admirar todo o meu empenho em ornamentar tudo... tudo por você... Em verdade, você nem sabia, talvez nunca saiba, de tudo que se sucedeu nessa casa desde que você apareceu. Eu não disse. Provavelmente nem eu tenho noção da imensidão de mudanças. Mas eu não disse, eu nada avisei. Emudecida pela tua visão deslumbrante. O grito de amor iminente... como me doem as palavras apaixonadas e as frases exageradas presas entre os dentes... guardo-as só para mim, você não as ouviria, você não as ouvirá. E quando não mais suporto a dor, grito o meu silêncio lançando um olhar expressivo, sem saber que quão enormes são as vastidões que ele terá que percorrer até chegar a você, sem encontrar porto certo nos seus olhos. O espaço entre nós é infinito. Naufrágio. Meu olhar se perdeu em meio a tempestade de lágrimas que há no eu e no meu, todavia invisível para você.Não, você não quis entrar... A varanda e o jardim já eram suficientemente agradáveis. E agora não sei mais se poderá.

É noite.

É frio.

Chega a hora de entrar e fechar a porta.




Teria eu realmente ficado muda durante todo esse tempo?Não sei...Com o olhar perdido por entre as flores do jardim ou acompanhando o movimento suave das nuvens, pensava em todo o universo que eu havia desenhado...Muda.Mas é lógico que eu estava muda. Como te dizer que preparei toda essa casa pra te receber? Como te falar do bordado que fiz com tanto carinho, das maçãs que colhi no pomar ainda esta manhã, as citações, as músicas... tudo tão delicadamente escolhido pra você.Veja! Os muros que haviam além dos limites do jardim, que tanto te desagradavam, derrubei-os todos... Nunca pensei que fosse tão difícil, tão pesado esse trabalho... E, por vezes, quase senti tua presença a me ajudar. Confortável ilusão... Eu mesma, sozinha, fiz o trabalho. Minhas mãos ainda estão cansadas e feridas.Lembro que ainda esse dia, quando entrei para descansar, acendi incenso de violeta, escrevi nossos nomes no ar com sua fumaça... Tão logo se desfizeram. Um presságio?Em meio a tantos desvarios talvez tenha balbuciado uma ou duas palavras, talvez tenha pedido uma flor, talvez tenha tentado expressar meus sentimentos...Ai... tudo em vão.

Olhei para o lado na esperança de mirar um pouco o seu lânguido sorriso, meu único real calmante. Onde você estava? Não vi você sair...

E agora o que fazer?

É noite.

E creio que o dia não amanhecerá amanhã.

É frio.

A vida se perdeu.

E o sonho dormiu mais uma vez.
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14 de maio de 2006