domingo, 25 de fevereiro de 2007

A cata-vento


Melodiosa.

Ocorreu que, um dia,

Eu, e somente eu, a escutei.

Ela ma fez pintar.

Céus... O que ela pesa em mim...

ela, que nada pesa.


Pra mim, feita de fatos é a cata-vento.

E, um dia, ocorreu que a vi saltando por meus jardins

com um saco cheio de ar nas mãos,

cabelos vivos

e pés flutuantes.

Ela não me olha,

põe toda sua atenção na sua tarefa:

catar vento.

Não há espaço pra mais nada.

Aliás, não sei se ela tenta capturar o vento,

ou tenta capturar a si mesma,

pois não sei o que separa ela do vento.


Ocorreu também que eu não adivinhei quem é a cata-vento.

Não costumo andar por meus jardins,

quando a vi, suponho,

eu estava em algum lugar a salvo da felicidade.


Ela só, é feliz.

Ela é a deliciosa falta de paixão.

Ela é todo o mundo que haverá,

quando eu me arriscar me perder,

quando eu largar os desejos adstringentes,

quando houverem quaresmeiras e goiabeiras no meu bosque.


E, então, não haverá mais meus limites,

E nem um não-eu para morrer.

A vida será eterna e docemente entediante,

Tal como é vê-la correr no jardim.

Ela precisa de mais jardim.

Eu preciso de mais jardim.

Eu, que não sabia que me havia perdido dentro de mim.


Já não preciso mais me resguardar

De todas as alegrias difíceis que a cata-vento tem me ensinado.