quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Como na tua profecia, eu te chamei de meu amor.

Como na minha profecia, amor era. Só não era meu.

Pois um dia, teus olhos, que eram o combustível de meu grito, resolveram matar meu coração de vez. E você, cambaleante, tão desacostumado à maldade, errou o tiro. Sarei tão logo chegou o verão. Mas guardei a cicatriz de quando caí da tua cama e a cicatriz de quando caí das nuvens. Bem sei que elas podem ser reabertas a qualquer instante, mas não faças isso.

Entende? É mais forte do que eu. Estou te matando. Aliás, tu estás te matando, estás te roubando de mim. E eu não quero isso, porque sei que vou sobreviver a isso, porque sei que um dia não vai doer mais.

Escrevo pra não te matar.

Eu escrevo pra sobreviver.

Escrevo caso contrário, explodo.

Explodo porque tamanha é a alegria que me enche. Essa alegria dói de tão grande que é, que não basta extravasar pelos poros, tem que ser gritada a cada segundo e este é meu grito. Ela dói, porque dói ser adiada, ser abafada, eu sei. Ela dói porque não quer que eu esqueça que tu vieste, certo dia e aqui fizeste casa, como se fosse um velho costume, como se fosse um cântico repetido eternamente, mas só nós o escutamos.

Meu erro foi crer que era caminho sem volta. Definitivo.

De todo modo, guardo a saudade do que não aconteceu.

Quem foste tu, pessoa que me adivinhou antes mesmo de eu me adivinhar?

Vento.

De brisa a ventania tentei ser, mas vento, vento mesmo, só tu. Sou terra e teimei a vida inteira em ser ar. Acabo sendo aquela poeira fina e irritante que se assenta sobre a mobília e se vai ao mais leve sopro.

Vento.

Hoje, em meu cotidiano caminhar solitário e filosófico, o vento trouxe uma flor lilás. Já deve saber que estou lilás hoje. Afinal, tu me adivinhas antes. Mas não sei... Não sei se conheceste minha fase lilás, apenas vermelha, tão rápida foi nossa colisão. Colisão... É palavra tão brutal (palavras são brutais). Todavia fusão não cabe aqui. Bem sabes que fundir é proibido. Até entrar em contato é proibido. Burlamos as regras, mas ninguém precisa saber.

Hoje tentei lembrar do ontem. Logo isso, logo eu, que não sei captar a quarta dimensão dos momentos. E, quando tento lembra-los, estão todos distorcidos. Eu sou toda distorcida. É verdade, pois, que não sei exato o tempo das coisas, mas sei os lugares. Por isso, tento retomar essas memórias cá embaixo da árvore mais outonosa que conheço. Não sei se ela me contagia ou eu a contagio. Apenas sei que ambas estamos no outono e nosso calendário é extremamente arbitrário. Eu sei que é outono. Eu sei que o inverno não tarda a chegar.

Contudo, estou alegre (quem sabe seja a alegria a matéria-prima do sofrimento). Há algo de alegre porque eu vi. E, às vezes, a gente vê sem saber o que viu, apenas sente que está ali. Eu, voando em densos vácuos, como uma borboleta amarela que passa pelo ar em movimentos tão desordenados e suaves. Eu, que me nutro de mim mesma e de tudo o mais que é negligenciado pelo mundo. Tão alheia ao mundo e tão entrecortada pelo mesmo. Como viste essa poeira no turbilhão? Ai, ai... Essas nossas vidas feitas tão somente pela matéria-prima de que é feita a vida. Nem mais, nem menos... Reinventada, expandida, envolvendo-nos com força em seus braços de pétalas de rosas brancas. Você, tão assustadoramente real e vivo. Eu, que vejo, cheiro e sinto com cada mínima parte de mim, nos limites e não-limites de meu corpo, perco-me tentando captar a vida.

É monstruoso, é quase proibido que dois pedaços de efêmera eternidade se encontrem assim, que tantas dimensões conspirem para que esses instantes aconteçam. É maldade que se desencontrem também.

Mas nos desencontramos.

E energia não pára em mim, amor. Senão adoeço. Senão fico assim assim. E o vento que te trouxe, também te levou de mim. Tentei agarrar, mas tu te fizeste lacunoso... etéreo...

E hoje, quem és tu, pessoa que me adivinhou antes mesmo de eu me adivinhar? És apenas isso: uma coisa inexpressiva que não transcende essa interrogação.

Hoje, eu estou bem. A vida, de quando em vez, é boa. Tudo do seu jeito, tudo a seu tempo e só eu impossível. Houve tempo que eu queria ser feliz, mas veio a vida e mostrou o pedestal de ilusão que sustenta a felicidade. Houve tempo que eu queria ter um alguém, mas veio o tempo e mostrou que eu sequer me tinha. E eis que é chegado o hoje, na iminência da diluição. No hoje, tenho o cabelo cacheado e gosto. Tenho olhos grandes e gosto. Tenho uma flauta e quero tocá-la para o mar. Tudo no hoje. Hoje, quando o vendo passa por mim, eu abro os braços. Quando chega a grama, tiro os calçados. Quando é hora de dormir, eu finjo que não tenho medo do escuro, desligo a luz e durmo. Hoje, quando é tempo, tenho coragem. Quando as lágrimas vêm, não se demoram. Quando é tempo de sorrir, sorrio. E rio, porque meu sorriso é o que ninguém vê, é meu e só. Hoje é dia que tudo está a seu lugar. E rio sem peso. Tudo está em seu lugar e eu em lugar algum, porque é este o meu lugar: a vaguidão. Hoje, a saudade me cumprimenta como velha amiga. Convivemos. Conversamos. Essa saudade lilás, pura, doce e constante, que, de tão refinada e visceral, não toca mais, nem de leve, a tristeza.

Hoje, revi o amor e desamor que, em época que agora me parece distante, tive por ti e quase senti compaixão: tanto que levei de ti e nada levou de mim.

Fico aqui me cumulando, então.

Hoje, precisava escutar um coração batendo, para ter certeza que ainda há coração que bate. Precisava escutar a respiração de quem respira mais que ar. Preciso de alguém que beije de olhos abertos. Ver quem vê nessa terra de cegos. Encontrar um amor não-metamerizado. Hoje, o medo não se sentiu seguro para entrar, pois minha casa está branca com cortinas vermelhas. Hoje não vi flores nem borboletas, mas uma criança me sorriu e me abraçou. Hoje é luto e vida. E há amor. Estou bem.

3 comentários:

yuri x disse...

sem paciência pra ler tudo, e o sono batendo...



mas aqui vai seu reforço:

=P~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

se é positivo ou não, cabe a vc decidir! ohohoho

Anônimo disse...

Gostei de tudo o que li no seu blog, mas esse texto que se inicia dizendo: "como na tua profecia, eu te chamei de meu amor" foi o que mais me fascinou, talvez porque também tenha me sentido assim por diversas vezes.
você que se intitula amulheratrasdosoculosedodecote e que parece querer manter seu anonimato, como fizeram muitos dos grandes escritores através de pseudônimos, tem um talento imenso e que acredito estar sendo lapidado diariamente, através do contínuo exercício de "vômito espiritual" (como vc coloca).
Desejo que continue expressando todo seu sentimento através das artes e que tenha ainda mais sucesso nessa atividade. PARABÉNS!!!

Anônimo disse...

Continuando...
Acredite em vc, faça o q gosta, afinal, a vida já está permeada de coisas chatas que somos obrigados a fazer. Não espere que todos reconheçam seu trabalho, pois isso não vai ocorrer, nem todo ser humano consegue encarar bem e elogiar o sucesso do seu próximo. Invista neste dom, ou melhor dizem que dons não existem, invista nesse talento, nessa grande facilidade que vc tem de transformar sentimentos comuns a todos nós em algo único, em poesia, poema. Pense alto, vc é capaz de realizar todos os seus mais íntimos sonhos e desejos. Espero q consiga tudo o que queres e que continue nos brindando com a sua fascinante escrita. Novamente meus PARABÉNS!