sexta-feira, 14 de dezembro de 2007


Parece-me que é preciso.
É preciso não perder o crepúsculo.
É preciso assistir ao crepúsculo de olhos bem abertos,
sentar-se junto a uma árvore
e ouvir-lhe as confissões enquanto anoitece..
É preciso sentir o cheiro das seis horas,
o melancólico cheiro da noite que se chega.

Aconteceu que uma vez permaneci horas contemplando o firme azul do céu vespertino...
cerrei os olhos.
quando dei por mim, era noite e eu havia perdido algo.

Como suportar o breu do meio-tempo,
do meio-termo,
do meio-beijo?
De(quase)certo, o belo azul há de voltar.
Contudo, a noite que se chega pode ser a última,
pode ser a para sempre,
pode ser a para nunca...
e vai que ela me encanta.

Parece-me que é preciso ainda mais.
É preciso não se perder no crepúsculo.
É preciso estar só no meio da sanidade
e sã, em meio à solidão.
Melancólica, firme, só e sã,
pois a noite que se chega,
ela pode ser a última.

sábado, 17 de novembro de 2007

Viscerando cá
..viscerando lá
....viscerando o mar
......víscera do mar
........viscerando má
..........Má, má, má...

...mar...

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Quando esvaecida de mim mesma,
o maior dos meus prazeres
é ver-te as vísceras gritando em sussurros por mim.

Contudo, que jamais
que jamais me falem de amor.
E que isso pareça uma ordem
e não a sina que, de fato, é.
Durante meus ritos de passagem
estava em meio a flores tóxicas
e, passado o passado,
chega, como presente,
para a mulher antiga que sou,
o amor antigo que és.

Amor, vem por palavras,
sê testemunha das minhas
e eu me irei por todos os meios
para me findar em ti.

sábado, 8 de setembro de 2007

fim de inverno

Saudade
Cansaço
Tédio
de mim
de ti
e de nossas promessas
que nós sabemos que sabemos
que nunca vamos cumprir.

se algum dia você chegar a me amar, não m'o diga
nunca, nunca...

sábado, 1 de setembro de 2007

Displicentemente escutas meu bem e meu mal
E quando eu me morrer em silêncio
Continuarás sem saber do cheiro de sono
E do cheiro de vento
das vastidões inabitadas dos meus desertos.



E tu te viverás, então,
em silêncio,
sem saber do eu que não eu.
Após tanto tempo de cárcere voluntário
é estranho estar novamente à mercê de mim.
Odeio estes dias de areia que vêm se chegando,
dias nos quais sou duna
e, grão a grão, leva-me o vento.

Antes que eu, mais uma vez,
comece a ver tristeza nas coisas alegres.
Antes que eu me morra em silêncio.
Leva-me, ó Vento!

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Nessas horas de solidão, de braços e boca vazios, vem-me a saudade dos meus amantes baratos. Depois que me retirei do mundo, o mundo se retirou de mim. Será que meu ao redor ainda me surpreende? Será que ainda me movo de mim? Minha libido está suprimida pelos remédios. E o amor, pelo tédio.
Agora só há falta.
Falta que não quer.
Falta que não ama.

para Clementina

Porque vieste não sei.
Só sei que, sem ti, já não sei.
Vieste calada
Minha outridade querida
Ausente em absoluto de mim
Minha amante, amada, mãe e irmã
Vida, vida, vida
...
Eu te abortei.
Perdoa-me!
Que eu hei de perdoar-te por teres ressucitado.

Desculpa, eu te amei.
(Bem sei que isso é imperdoável)
Não, eu te viscerei.

Estranha que me entranha,
teu cabelo foi meu travesseiro por tanto tempo e eu nem notei.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Sobre a menina e a solidão (1)

Rodando as idéias na velha esquina onde o vento (dentre outras coisas) faz a curva; a menina diz, em seu solilóquio pesaroso e tristemente consciente:
- Olha o coração.
Quem quer? Quem quer?
Quem é que precisa de colo e palavra meiga?
Quem é? Quem é?
Quem quer cheiros novos?
Novos sabores?
E melodias outras?
Quem quer? Quem quer?
Quem é que quer gente de verdade?
A menina quando triste...
A menina quando chora...
A menina quando fraca...
Quem é? Quem é?

[...]

- Olha o coração!
Pr'onde vai? Donde vem?
Quem sabe?
Olha, a solidão...
Donde vem? Quando vai?
Pr'onde vai? Será que vai?
Eu sei, eu sei...
Mas, por hora, é segredo.

domingo, 1 de julho de 2007


Sentados na varanda.

Tarde morna, morosa...

E o silêncio.

Você não fala, não está.

Eu não falo, mas eu estou, eu sempre estive. Sempre estive nessa casa, nessa varanda a sua espera. Antes de saber que você existia eu já estava aqui. No jardim, na varanda, preparando a casa para sua chegada. Já havia retirado da velha cômoda empoeirada grandes porções de um sentimento esquecido, reprimido, sufocado e, ainda assim, tão lindo e infinito. Estava na sala de estar preparando arranjos com rosas amarelas pra te receber.

E eis que você chega.
Mãos vazias (o coração também?)... Mas não, não percebi isso de imediato... Somente agora, sentada na varanda ao teu lado, moendo e remoendo os fatos... pensamentos...Todas as flores que tenho são as que eu mesma plantei. Quisera eu ter ganho ao menos uma.

Em verdade você não quis entrar, não quis admirar todo o meu empenho em ornamentar tudo... tudo por você... Em verdade, você nem sabia, talvez nunca saiba, de tudo que se sucedeu nessa casa desde que você apareceu. Eu não disse. Provavelmente nem eu tenho noção da imensidão de mudanças. Mas eu não disse, eu nada avisei. Emudecida pela tua visão deslumbrante. O grito de amor iminente... como me doem as palavras apaixonadas e as frases exageradas presas entre os dentes... guardo-as só para mim, você não as ouviria, você não as ouvirá. E quando não mais suporto a dor, grito o meu silêncio lançando um olhar expressivo, sem saber que quão enormes são as vastidões que ele terá que percorrer até chegar a você, sem encontrar porto certo nos seus olhos. O espaço entre nós é infinito. Naufrágio. Meu olhar se perdeu em meio a tempestade de lágrimas que há no eu e no meu, todavia invisível para você.Não, você não quis entrar... A varanda e o jardim já eram suficientemente agradáveis. E agora não sei mais se poderá.

É noite.

É frio.

Chega a hora de entrar e fechar a porta.




Teria eu realmente ficado muda durante todo esse tempo?Não sei...Com o olhar perdido por entre as flores do jardim ou acompanhando o movimento suave das nuvens, pensava em todo o universo que eu havia desenhado...Muda.Mas é lógico que eu estava muda. Como te dizer que preparei toda essa casa pra te receber? Como te falar do bordado que fiz com tanto carinho, das maçãs que colhi no pomar ainda esta manhã, as citações, as músicas... tudo tão delicadamente escolhido pra você.Veja! Os muros que haviam além dos limites do jardim, que tanto te desagradavam, derrubei-os todos... Nunca pensei que fosse tão difícil, tão pesado esse trabalho... E, por vezes, quase senti tua presença a me ajudar. Confortável ilusão... Eu mesma, sozinha, fiz o trabalho. Minhas mãos ainda estão cansadas e feridas.Lembro que ainda esse dia, quando entrei para descansar, acendi incenso de violeta, escrevi nossos nomes no ar com sua fumaça... Tão logo se desfizeram. Um presságio?Em meio a tantos desvarios talvez tenha balbuciado uma ou duas palavras, talvez tenha pedido uma flor, talvez tenha tentado expressar meus sentimentos...Ai... tudo em vão.

Olhei para o lado na esperança de mirar um pouco o seu lânguido sorriso, meu único real calmante. Onde você estava? Não vi você sair...

E agora o que fazer?

É noite.

E creio que o dia não amanhecerá amanhã.

É frio.

A vida se perdeu.

E o sonho dormiu mais uma vez.
****
14 de maio de 2006

terça-feira, 19 de junho de 2007

João amava Maria,
que amava João.
Maria amava João,
que amava Maria.
Gertrudes amava João, que amava Maria.

João ficou com Maria.
Maria ficou com João.
E Gertrudes não conseguiu entrar na história.
Minha vida foi feita de brisa musicada
A cada parte tua que não está em mim
Há um pedaço de partitura esquecido.
A cada parte minha que não é parte tua,
Me perco perguntando o porquê dessa parte minha tanto te querer.
E a parte tua que é só tua parte,
Parte-me.
Parte por parte,
Haverás de me partir toda.
Parte por parte,
Partirei de mim.
Parte por parte,
Partirei pra ti.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Amor de cada dia
Me ama hoje
Aceita nossa efemeridade
Assim como aceito a efemeridade do caso de amanhã
E que não caiamos no tédio...
Amemo-nos.
Por hora, fica a dor do amanhã
a eterna saudade do que se passa agora
Vivo tudo com esse peso
Felizes são os ignorantes
Vivo tudo ciente de sua iminente diluição
Vivo com retinas cansadas de tanto passado
de ver o passado no presente
de ver o presente como passado...

O mundo inteiro parece já ter passado,
em especial as novidades.

Por hora, estou com leve inclinação para o tédio,
para as tarefas repetitivas e docemente fatigantes,
que é quando desperta a parte menos bruta de mim.

Por hora, não ser se estou com uma tristeza difícil
ou com uma alegria fácil.
Em verdade, quero apenas me morrer em tudo que há de exterior a mim,
matar tudo do que preciso precisar
e deixar pegadas apenas nas vielas mais escuras da alma.
Lembro-me que já escrevi versos de amor em folhas caídas.
Ninguém teve o cuidade de conservar a folha.
Nem, muito menos, o sentimento.
E ambos pereceram.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Longe, longe, longe...
Os gatos, as papoulas e a pedra em forma de mão
As goiabas, as galinhas e o começo da minha terna solidão

Mundo, mundo, doce mundo...
Em qual de meus labirintos me perdi?
Quando foi que essa muralha começou a dividir meu reinado?

Em meus mapas, não há caminho de volta...
Não há volta.
Talvez meu erro foi acreditar que a felicidade estava além da cerca de estacas e arame que delimitava meu reino.

quinta-feira, 29 de março de 2007

Procura-se um cúmplice
desses enxutos e concisos
desses que se consolam
e entendem quem quer se consolar.
Procura-se um cúmplice
desses presentes
desses que falam sozinhos
desses que cultuam o ócio dominical
e, de quando em vez, me permita modificar isso.
Procura-se um cúmplice
desses sinestésicos
que tenha tardes e entardeceres
desses que não resistem a sorvetes,
banhos de chuva,
bancos de praça
e caminhadas sem rumo.
Procura-se cúmplice.
Procura-se um tipo de gente
capaz até de gostar da cor verde.
Procura-se gente de verdade
dessas que gostam de pedras
neologismos,
penas,
cheiro de papel
e, talvez, até de mim.

domingo, 25 de fevereiro de 2007

A cata-vento


Melodiosa.

Ocorreu que, um dia,

Eu, e somente eu, a escutei.

Ela ma fez pintar.

Céus... O que ela pesa em mim...

ela, que nada pesa.


Pra mim, feita de fatos é a cata-vento.

E, um dia, ocorreu que a vi saltando por meus jardins

com um saco cheio de ar nas mãos,

cabelos vivos

e pés flutuantes.

Ela não me olha,

põe toda sua atenção na sua tarefa:

catar vento.

Não há espaço pra mais nada.

Aliás, não sei se ela tenta capturar o vento,

ou tenta capturar a si mesma,

pois não sei o que separa ela do vento.


Ocorreu também que eu não adivinhei quem é a cata-vento.

Não costumo andar por meus jardins,

quando a vi, suponho,

eu estava em algum lugar a salvo da felicidade.


Ela só, é feliz.

Ela é a deliciosa falta de paixão.

Ela é todo o mundo que haverá,

quando eu me arriscar me perder,

quando eu largar os desejos adstringentes,

quando houverem quaresmeiras e goiabeiras no meu bosque.


E, então, não haverá mais meus limites,

E nem um não-eu para morrer.

A vida será eterna e docemente entediante,

Tal como é vê-la correr no jardim.

Ela precisa de mais jardim.

Eu preciso de mais jardim.

Eu, que não sabia que me havia perdido dentro de mim.


Já não preciso mais me resguardar

De todas as alegrias difíceis que a cata-vento tem me ensinado.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

descaminho

Acredite, eu vi!

Havia um véu cobrindo o mundo,

Quando aqueles olhos chegaram

E rasgaram tudo.

Aqueles olhos rasgados!

Por trás de tantas rendas,

Existe ser que pulsa!

Inevitável se perder em seus giros, curvas e labirintos

Desejar sua tez como doce cobertor,

Seu som,

Tom...

Que des(a)tino!

Não, não se desate!

Não se desarme assim.

Não se venda por tão pouco.

Não se perca nas curvas.

Não se engane pelo cheiro.

Não se deixe levar por seus ca(pri)chos!

Acredite! Por trás disso há ser que pulsa!

Há gente!

E, se você perder,

Se você se enganar,

Se você quiser nadar apenas na superfície,

Se você preferir o jardim,

Se você preferir não se embrenhar,

Se você usar apenas um terço da capacidade máxima de seus pulmões...

Ah! O tempo se perde...

A vida se perde...

Ela te perde...

E aqueles olhos se fecham.

E, com eles, todo o invisível,

O inefável...

Que des(a)tino!

Descaminhe...

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Chego só.
Quem, perdido na tarde, esperaria por mim?
Dedico-me,
poetiso,
mas sentimento mesmo fica só cá.
Calado.
Existindo para os outros.
Amantes baratos
e amores valorosos.
E, no final, parto só.
O que ficaria para mim?
Além da carne triste,
a fala triste,
os olhos tristes
longos
pesados.
Quem não cansa, afinal,
de atirar palavras assim,
como flechas,
atiradas sem alvo
sem ouvidos
sem ecos
sem resposta.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Como na tua profecia, eu te chamei de meu amor.

Como na minha profecia, amor era. Só não era meu.

Pois um dia, teus olhos, que eram o combustível de meu grito, resolveram matar meu coração de vez. E você, cambaleante, tão desacostumado à maldade, errou o tiro. Sarei tão logo chegou o verão. Mas guardei a cicatriz de quando caí da tua cama e a cicatriz de quando caí das nuvens. Bem sei que elas podem ser reabertas a qualquer instante, mas não faças isso.

Entende? É mais forte do que eu. Estou te matando. Aliás, tu estás te matando, estás te roubando de mim. E eu não quero isso, porque sei que vou sobreviver a isso, porque sei que um dia não vai doer mais.

Escrevo pra não te matar.

Eu escrevo pra sobreviver.

Escrevo caso contrário, explodo.

Explodo porque tamanha é a alegria que me enche. Essa alegria dói de tão grande que é, que não basta extravasar pelos poros, tem que ser gritada a cada segundo e este é meu grito. Ela dói, porque dói ser adiada, ser abafada, eu sei. Ela dói porque não quer que eu esqueça que tu vieste, certo dia e aqui fizeste casa, como se fosse um velho costume, como se fosse um cântico repetido eternamente, mas só nós o escutamos.

Meu erro foi crer que era caminho sem volta. Definitivo.

De todo modo, guardo a saudade do que não aconteceu.

Quem foste tu, pessoa que me adivinhou antes mesmo de eu me adivinhar?

Vento.

De brisa a ventania tentei ser, mas vento, vento mesmo, só tu. Sou terra e teimei a vida inteira em ser ar. Acabo sendo aquela poeira fina e irritante que se assenta sobre a mobília e se vai ao mais leve sopro.

Vento.

Hoje, em meu cotidiano caminhar solitário e filosófico, o vento trouxe uma flor lilás. Já deve saber que estou lilás hoje. Afinal, tu me adivinhas antes. Mas não sei... Não sei se conheceste minha fase lilás, apenas vermelha, tão rápida foi nossa colisão. Colisão... É palavra tão brutal (palavras são brutais). Todavia fusão não cabe aqui. Bem sabes que fundir é proibido. Até entrar em contato é proibido. Burlamos as regras, mas ninguém precisa saber.

Hoje tentei lembrar do ontem. Logo isso, logo eu, que não sei captar a quarta dimensão dos momentos. E, quando tento lembra-los, estão todos distorcidos. Eu sou toda distorcida. É verdade, pois, que não sei exato o tempo das coisas, mas sei os lugares. Por isso, tento retomar essas memórias cá embaixo da árvore mais outonosa que conheço. Não sei se ela me contagia ou eu a contagio. Apenas sei que ambas estamos no outono e nosso calendário é extremamente arbitrário. Eu sei que é outono. Eu sei que o inverno não tarda a chegar.

Contudo, estou alegre (quem sabe seja a alegria a matéria-prima do sofrimento). Há algo de alegre porque eu vi. E, às vezes, a gente vê sem saber o que viu, apenas sente que está ali. Eu, voando em densos vácuos, como uma borboleta amarela que passa pelo ar em movimentos tão desordenados e suaves. Eu, que me nutro de mim mesma e de tudo o mais que é negligenciado pelo mundo. Tão alheia ao mundo e tão entrecortada pelo mesmo. Como viste essa poeira no turbilhão? Ai, ai... Essas nossas vidas feitas tão somente pela matéria-prima de que é feita a vida. Nem mais, nem menos... Reinventada, expandida, envolvendo-nos com força em seus braços de pétalas de rosas brancas. Você, tão assustadoramente real e vivo. Eu, que vejo, cheiro e sinto com cada mínima parte de mim, nos limites e não-limites de meu corpo, perco-me tentando captar a vida.

É monstruoso, é quase proibido que dois pedaços de efêmera eternidade se encontrem assim, que tantas dimensões conspirem para que esses instantes aconteçam. É maldade que se desencontrem também.

Mas nos desencontramos.

E energia não pára em mim, amor. Senão adoeço. Senão fico assim assim. E o vento que te trouxe, também te levou de mim. Tentei agarrar, mas tu te fizeste lacunoso... etéreo...

E hoje, quem és tu, pessoa que me adivinhou antes mesmo de eu me adivinhar? És apenas isso: uma coisa inexpressiva que não transcende essa interrogação.

Hoje, eu estou bem. A vida, de quando em vez, é boa. Tudo do seu jeito, tudo a seu tempo e só eu impossível. Houve tempo que eu queria ser feliz, mas veio a vida e mostrou o pedestal de ilusão que sustenta a felicidade. Houve tempo que eu queria ter um alguém, mas veio o tempo e mostrou que eu sequer me tinha. E eis que é chegado o hoje, na iminência da diluição. No hoje, tenho o cabelo cacheado e gosto. Tenho olhos grandes e gosto. Tenho uma flauta e quero tocá-la para o mar. Tudo no hoje. Hoje, quando o vendo passa por mim, eu abro os braços. Quando chega a grama, tiro os calçados. Quando é hora de dormir, eu finjo que não tenho medo do escuro, desligo a luz e durmo. Hoje, quando é tempo, tenho coragem. Quando as lágrimas vêm, não se demoram. Quando é tempo de sorrir, sorrio. E rio, porque meu sorriso é o que ninguém vê, é meu e só. Hoje é dia que tudo está a seu lugar. E rio sem peso. Tudo está em seu lugar e eu em lugar algum, porque é este o meu lugar: a vaguidão. Hoje, a saudade me cumprimenta como velha amiga. Convivemos. Conversamos. Essa saudade lilás, pura, doce e constante, que, de tão refinada e visceral, não toca mais, nem de leve, a tristeza.

Hoje, revi o amor e desamor que, em época que agora me parece distante, tive por ti e quase senti compaixão: tanto que levei de ti e nada levou de mim.

Fico aqui me cumulando, então.

Hoje, precisava escutar um coração batendo, para ter certeza que ainda há coração que bate. Precisava escutar a respiração de quem respira mais que ar. Preciso de alguém que beije de olhos abertos. Ver quem vê nessa terra de cegos. Encontrar um amor não-metamerizado. Hoje, o medo não se sentiu seguro para entrar, pois minha casa está branca com cortinas vermelhas. Hoje não vi flores nem borboletas, mas uma criança me sorriu e me abraçou. Hoje é luto e vida. E há amor. Estou bem.

sábado, 27 de janeiro de 2007

Por que é ela?

Ela é que o vento carrega em dança.

Ela que tem os movimentos mais doces e sinuosos.

E tem a memória de vida mais antiga.

Nem fadas, nem pintores sabem quantas almículas ali resistem.

Quantas almículas ali se contém,

E, sob o disfarce de seguir o eterno galante,

Dançam como doidivanas

E se gritam, como só a vida sabe se gritar,

Fazendo-se ver bem

Diante da vista incansável

da moça sentada sob a árvore mais outonosa da Br Luz.

Que só deseja

Leveza

Apenas o suficiente para dançar com a brisa.

Como disse Zizi, quem sabe a morte.

Quem sabe na morte...

A dança.

Ah! Dança... quem sabe?

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

Te tenho em mim
não como tatuagem,
mas sim como úlcera,
como coisa que não vejo
e sinto doer de quando em vez.
Te tenho em mim tão inconscientemente
como minhas artérias viscerando cá dentro
sem eu me dar conta.
Te tenho como sono e te durmo.
És em mim como súbito desejo de banho de chuva em noite quente de novembro.
Em verdade, eu queria te chover.
Te ter em ti
Tocável
Visível...
Te ter ali e além
Te ter como meu bem
Enfim, te ter em mim.
Nas minhas fantasias reais,
você me pariu de mim.
Você foi a pá,
enquanto eu estava enterrada viva.
Foi o abrigo que eu não procurei
quando você se transformou em tiroteio.
Encantado e encantador,
alento e dor,
teus nãos e tuas ausências me consumindo...
Você, para quem eu sou os cantos de um mundo redondo,
para quem eu sou ponto cego,
para quem eu sou fundo.
VocÊ, meu amigo de outras vidas,
meu pai, meu irmão...
E agora, reta paralela a mim.
Só sei que o infinito ainda não é chegado
porque nós dois ainda não nos encontramos.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

É vero
Verão é vento
que veio,
que vem
e que vai.
Devo deixá-lo ir,
devo deixá-lo vir...
Ah! Se ele viesse...
Se ele adivinhasse minhas estações arbitrárias...
Quão feliz eu seria!
Mas não,
ele tem ciclos próprios...
Mas sim,
quando vem,
ele cabe.
Quando vem,
encaixa.
Porque o tempo encaixa na estação
Assim como a estação encaixa no tempo
E só eles conhecem sua lógica própria.