terça-feira, 28 de novembro de 2006

Me abismo num domingo que não aconteceu

E olho no fundo dos olhos do filho que nunca terei

E seguro na mão do companheiro de estrada que nunca me acompanhará

E conheço o abraço suave do amor que só habitará a face inabitada do meu coração.

Agora escuto o som da harpa que está em outra sala, em outro tempo

E isso me distrai

Enquanto contemplo o pôr-do sol dentro do meu quarto de paredes de concreto sem janelas

E penso:

Sou um pedacinho de teto do mundo que caiu no chão

E ainda estou cá, estatelada,

Desacostumada com a finitude.

E meu filho, recém-abortado me diz:

A vida é apenas o caminho mais curto para a morte.