quarta-feira, 1 de novembro de 2006

*poietizando o hoje

Pois é, eu to bem.

A vida, de quando em vez, é boa.

Tudo do seu jeito, tudo a seu tempo e só eu impossível.

Houve tempo que eu queria ser feliz, mas veio a vida e mostrou o pedestal de ilusão que sustenta a felicidade.

Houve tempo que eu queria ter um alguém, mas veio o tempo e mostrou que eu sequer me tinha.

E eis que é chegado o hoje, na iminência da diluição.

No hoje, tenho o cabelo cacheado e gosto.

Tenho olhos grandes e gosto.

Tenho uma flauta e quero tocá-la para o mar.

Tudo no hoje.

Hoje, quando o vendo passa por mim, eu abro os braços.

Quando chega a grama, tiro os calçados.

Quando é hora de dormir, eu finjo que não tenho medo do escuro, desligo a luz e durmo.

Hoje,

Quando é tempo, tenho coragem.

Quando as lágrimas vêm, não se demoram.

Quando é tempo de sorrir, sorrio

E rio, porque meu sorriso é o que ninguém vê, é meu e só.

Hoje é dia que tudo está a seu lugar

E rio sem peso.

Tudo está em seu lugar e eu em lugar algum, porque é este o meu lugar: a vaguidão.

Hoje, a saudade me cumprimenta como velha amiga. Convivemos. Conversamos. Essa saudade lilás, pura, doce e constante, que, de tão refinada e visceral, não toca mais, nem de leve, a tristeza.

Hoje, tomei café da manhã com a alegria e com a dor.

Hoje, revi amores e desamores de épocas distantes e quase senti compaixão: tanto que levei deles e nada levaram de mim.

Fico aqui me cumulando, então.

Hoje, precisava escutar um coração batendo

Para ter certeza que ainda há coração que bate.

Precisava escutar a respiração de quem respira mais que ar

Preciso de alguém que beije de olhos abertos

Ver quem vê nessa terra de cegos

Encontrar um amor não-metamerizado.

Hoje, o medo não se sentiu seguro ´pra entrar, pois minha casa está branca com cortinas vermelhas.

Hoje não vi flores nem borboletas, mas uma criança me sorriu e me abraçou.

Hoje é luto e vida

E há amor.

Estou bem.

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

Poema da face que ninguém viu...

(Um arremedo drummondiano feminino)

A mulher atrás do decote

é séria, simples e forte.

Quase não conversa.

Tem poucas, raras amigas

A mulher atrás dos óculos e do decote.