sábado, 29 de julho de 2006

Você consegue se abandonar?
Eu consigo.
Eu me abandonei
Eu me perdi...
no vazio
no cheio
nos ventos e rios
que por aí correm.

Sou folha.
Sou pedra.
Sou pena da asa de urubu
de rabo de pavão
de bem-te-vi
de beija-flor.

Sou flor
do meu próprio jardim
ou seria do teu?
(Se é que ainda existe meu,
teu
ou de quem quer que seja)

Sou raiz.
Cresço no rumo de dentro
Preciso de espaço
dentre outras coisas
que só encontro cá,
dentro.

Sou vasta.
Basta!
Não vai durar...
Não posso captar esse instante
de assustadora expansão.

O espaço
O tempo
As normas
Meus alicerces internos
e todo o resto
se foram...
Sabe se eles vão voltar?
(Eu sei,
mas não me conto,
por enquanto)

Por agora,
estou dentro e fora
de tudo
de nada.
De nada preciso.
Não me contarei nada disso
E não saberei.

Caminhando rente ao precipício

Eu não morri.
Não por completo.
Mas pensei que sim
Dolorosamente.

Me perdi de mim.
Me roubaram (me roubei),
Me expulsaram (me expulsei)
de mim.
Eu não me aceito
em mim.

Viver dói,
às vezes.
Morrer dói,
sempre.
Habitar em mim dói,
sempre.
Nunca estou
quando mais preciso.

Quando mais preciso,
não tenho meu amor,
não tenho o meu abrigo.
Eu não me aceito.

Eu me repudio
Eu me repudio
Eu me repudio!
!
Infrutífera
Incapaz
Insignificante
Para mim
Para qualquer um...

Eu, in, in, in...
Não.
Do lado de dentro.
Não.

Quase morri
Do lado de dentro
Quase morri.
Mas não tenho esse direito
E não morri
Do lado de fora.