sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

E eis que o coração dilacerado
cansado de amar
desiste.

...

Mas o corpo...
Ah! O corpo revoluciona-se...
E surge esse amor de pele.
E surge esse amor de vísceras.
Surge essa coisa entranhosa,
Soberana que me toma.

Minha pele te gritou tudo, eu sei que sim.
Mas meu coração...
Ele permanece calado
Abismado diante de todo o amor que não fora capaz.

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

sábado, 23 de dezembro de 2006

* aos meus amores doismileseisianos

E no meio dessa dormência mental
Me vem essa dor...
A dor de ver minha faca limpa, sem sangue...
Quando era tempo,
Não a cravei no peito teu,
Para roubar-te um pedaço do teu coração.
Mas a pus no meu
E me espantei ao não ver sangue
Ao vê-la entrar seca
E sair seca.
Do buraco que ficou,
Brotou flor pálida
Que agora dou colorido calmamente
Antes que murche.
E agora,
De quando em vez,
Até sinto pulsação,
Até sinto coração que bate por si só,
Até sinto que há artérias viscerando cá dentro
E não crescendo rumo às entranhas de outrem, como era de costume,
E até sinto que há vida em mim
Vida feita tão-somente da matéria-prima de que é feita a vida
Nem mais nem menos.

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

*sobre a angústia e a insônia depois de um vômito espiritual incompleto

Tenho ciclos de cinco horas de sono.
E acordo com o alvoroço dos "dos outros",
Dos "não-meus".
Sempre desperto para o não-meu
Ao acordar nem sei se sou gente
Acordo tão recolhida,
tão resumida,
que minha modesta cama de solteira
Parece mais um deserto.
Eu me desertifiquei.
Aos poucos, lembro que há sóis e céus lá fora.
É bom lembrar que há céus e sóis.
Me dá a calma dos pequenos.
Há céus, sol, mar, vento
Tudo há
O que falta?
Tempo
E tempo é o que me sobra
Palavras me sobram
E tudo o que me excede,
corre para os mares do mundo
E deixa seu sentido cá,
Sufocado.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

sobre a saudade do que não acontece

em tempos hodiernos

vivo em denso vácuo

meus sentidos se excedem

cores tão cores

Vermelho

cheiros tão cheiros

Pimenta Rosa

sons tão sons

vozes interiorizadas

É, o vácuo é deveras denso.

É, há espaço para verbos de ligação.

em que trajetória estarei,

em que velocidade estarei,

quando você, cometa, passar?

passará?

terça-feira, 28 de novembro de 2006

Me abismo num domingo que não aconteceu

E olho no fundo dos olhos do filho que nunca terei

E seguro na mão do companheiro de estrada que nunca me acompanhará

E conheço o abraço suave do amor que só habitará a face inabitada do meu coração.

Agora escuto o som da harpa que está em outra sala, em outro tempo

E isso me distrai

Enquanto contemplo o pôr-do sol dentro do meu quarto de paredes de concreto sem janelas

E penso:

Sou um pedacinho de teto do mundo que caiu no chão

E ainda estou cá, estatelada,

Desacostumada com a finitude.

E meu filho, recém-abortado me diz:

A vida é apenas o caminho mais curto para a morte.

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

Sobre dragões e grama.

Ando por ruas que me escondem o teto do mundo

Ando tão solta

Ando tão pelo chão

Tão de passado

Estou na fila

A única na fila com olhos de quem não procura

Com olhos de quem não espera

Com olhos de quem apenas está sob o teto do mundo

A ímpar

A in-par

Estava ali

A dez metros

A dez anos-luz

É bom parar para ver o teto do mundo

É bom criar raízes em pleno vôo

Se você não estivesse de olhos fechados

Juraria que olhava pra mim

Conto os dias para ver o teto do mundo

Para subir nesse abismo

Ê você abismo

Ê, vou ser abismo

Só pra me abismar contigo sob o teto do mundo.

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

*borboleta se transforma em loba má no verão

Amor, não finja não ver o vermelho do meu cabelo

não vermelho como antes (é que sem ti faltou sangue)

mas ainda vermelho.

Não olhe com desprezo para essas pernas

que só sentem saudades de se enlaçarem nas tuas.

Não olhe com descaso para esse quadril

que só quer ditar o ritmo dos teus olhos.

Não fuja dos meus olhos

como um dia fugi dos teus...

E agora,

pela estrada afora

(e adentro),

vou bem sozinha,

com saudades de Chapeuzinho Vermelho

e me abrigando em braços de lobos maus.

Em verdade, eu busco os lobos maus

só pra ver que também posso ser loba má

muito má.

Mas não tenha medo

sou eu que caminho

pela vida afora

(pela vida adentro)

sozinha

com saudades de Chapeuzinho Vermelho

e endoidecendo (com) lobos maus.

quarta-feira, 1 de novembro de 2006

*poietizando o hoje

Pois é, eu to bem.

A vida, de quando em vez, é boa.

Tudo do seu jeito, tudo a seu tempo e só eu impossível.

Houve tempo que eu queria ser feliz, mas veio a vida e mostrou o pedestal de ilusão que sustenta a felicidade.

Houve tempo que eu queria ter um alguém, mas veio o tempo e mostrou que eu sequer me tinha.

E eis que é chegado o hoje, na iminência da diluição.

No hoje, tenho o cabelo cacheado e gosto.

Tenho olhos grandes e gosto.

Tenho uma flauta e quero tocá-la para o mar.

Tudo no hoje.

Hoje, quando o vendo passa por mim, eu abro os braços.

Quando chega a grama, tiro os calçados.

Quando é hora de dormir, eu finjo que não tenho medo do escuro, desligo a luz e durmo.

Hoje,

Quando é tempo, tenho coragem.

Quando as lágrimas vêm, não se demoram.

Quando é tempo de sorrir, sorrio

E rio, porque meu sorriso é o que ninguém vê, é meu e só.

Hoje é dia que tudo está a seu lugar

E rio sem peso.

Tudo está em seu lugar e eu em lugar algum, porque é este o meu lugar: a vaguidão.

Hoje, a saudade me cumprimenta como velha amiga. Convivemos. Conversamos. Essa saudade lilás, pura, doce e constante, que, de tão refinada e visceral, não toca mais, nem de leve, a tristeza.

Hoje, tomei café da manhã com a alegria e com a dor.

Hoje, revi amores e desamores de épocas distantes e quase senti compaixão: tanto que levei deles e nada levaram de mim.

Fico aqui me cumulando, então.

Hoje, precisava escutar um coração batendo

Para ter certeza que ainda há coração que bate.

Precisava escutar a respiração de quem respira mais que ar

Preciso de alguém que beije de olhos abertos

Ver quem vê nessa terra de cegos

Encontrar um amor não-metamerizado.

Hoje, o medo não se sentiu seguro ´pra entrar, pois minha casa está branca com cortinas vermelhas.

Hoje não vi flores nem borboletas, mas uma criança me sorriu e me abraçou.

Hoje é luto e vida

E há amor.

Estou bem.

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

Poema da face que ninguém viu...

(Um arremedo drummondiano feminino)

A mulher atrás do decote

é séria, simples e forte.

Quase não conversa.

Tem poucas, raras amigas

A mulher atrás dos óculos e do decote.

quarta-feira, 18 de outubro de 2006

Ela
ela.
Por onde anda ela?
Ela
ela.
Vento poeirento
Parece que a sentiram por aí...
Ela
ela.
Parece que gosta de jasmim
Parece que gosta de alguém
Ela
ela.
Amor e carne
Mãos e olhos
Vermelho e lilás.
Ela
ela.
Capricorniana que só ela!
Ela
ela.
Alegria incompreensível.
Sofrimento invisível.
Ausente
Aonde?
Ela
ela.
Por onde voa ela?
Parece que a árvore da esquina a viu.
Parece que a borboleta amarela que acabou de morrer a viu.

sexta-feira, 6 de outubro de 2006

Ela, de repente, com ela mesma.

Sabe, nessas tardes quentes de azul profundo, azul infinito, percebo que o mundo é severo e irresistível, como o azul. Condenados à felicidade. Estranho, estranho. E eu, somente a muito custo consigo extrair de mim uma alegriazita.
Não, os outros é que extraem.
De mim mesma não sei o que extraio. Nada, talvez.
Puxa, agora me deu uma saudade de mim! Queria agora me abrigar em meus braços, contar meus segredos(quais, meu daimon? será que nem segredos eu tenho?) e rir um pouco. Rir o riso puro e tolo dos apaixonados. Saudades e saudades de meu riso puro e tolo. Gosto de me ver, me escutar e me sentir sorrir, como uma mãe gosta do riso do filho mesmo antes de ser mãe.
Mas tudo isso se desfaz diante do outro, não sou nada.
Maldita alteridade!!

sábado, 9 de setembro de 2006

A cada choro há sempre a esperança de que através dos meus olhos saia algo mais que lágrimas.
Sangue talvez.
Talvez acompanhado de todo o fel que há em minh'alma.
Mas não.
Vejo... são só lágrimas.
A cada dia há sempre a esperança que algo me faça acreditar que minha vida deva se prolongar até o dia seguinte.
Mas não.
É um dia, só mais um.
E prossigo na esperança de encontrar algo que me motive a prosseguir.
Cada pessoa, um continente.
Cada novo amor, a esperança da lendária e proibida fundição.
E amo, com a esperança de um dia ter a quem amar.
Um dia.
Cada dia.

segunda-feira, 4 de setembro de 2006

Estou ao sol.


Em meus longos períodos de sombra, gastava horas a pensar em como seria quando o sol chegasse e me punha a imaginar tantas coisas cheias de luz e calor, sem saber que o sol é tão maior que não cabe na minha imaginação, nem em meus sonhos, nem em meu mundo.


Estou ao sol.


Mas ainda não abri os olhos.


O porquê eu não sei (ou talvez não saiba ou não queira me contar)...


Talvez não saiba abrir os olhos.


Talvez não queira.


Dizem que é perigoso. Dizem que posso perder a visão. Contudo, de que me adianta poder ver, se não poso ver o que mais desejo?


Estou ao sol.


E se, nesse instante, me aparecesse o impulso repentino necessário e eu abrisse, então, os olhos. Lentamente os pensamentos cheios de luz e calor desapareceriam. Não precisaria mais de idealizações. O que está em frente a meus olhos é maior do que qualquer uma delas.


Todavia, meus olhos estão cerrados.


Ainda.


Estou ao sol.


Cada célula de meu corpo parece captar a energia transmitida.


Cada recanto da minha mente, desde os mais expostos até os mais obscuros, percebem sua presença tão próxima.


Estou ao sol.


E não sei mais o que falar ou pensar... Não adianta... É sempre tão inútil... tão insuficiente.


Posso me expor, em parte, mas parece que jamais conseguirei transpor a barreira de minhas grades, minhas pálpebras.


Mas sei que faria de tudo para conseguir, mesmo que, para tanto, perdesse a visão...


...


Como abrir os olhos e deixar a luz entrar?

sexta-feira, 25 de agosto de 2006

Hoje me perdi numa mecha de cabelo

Hoje um manto de mágoas me distanciou

(ainda mais)

de tudo e de todos.

Hoje pude mergulhar num oceano profundo

sem me molhar

(a não ser pelas lágrimas).

Hoje me perdi de mim

Soltei minha mão

Não! Por favor! Não...

Não sei andar solta assim...

Resgate-me!

Não... não sei quanto deixarei aqui quando voltar pra mim

Não estou pronta pra aceitar um mundo ordenado de volta.

Não sei se o tempo passou...

(o céu ainda está lilás como quando acordei)

Ou se estou presa nesse eterno segundo do hoje.

Hoje, com todas as armas para extirpar o tédio,

Preferi deixar-me seduzir por sua morosa arte de me levar ao nada.

Hoje é hoje

E sempre estou presa

Sempre é hoje

Um hoje sempre igual a esse

Lilás e longo.

domingo, 20 de agosto de 2006

Moço...
Moço.
Olha que eu me mato te matando.

Moço, moço...
Olha que esses olhos me matam
Olha que esses olhos me cegam do resto do mundo...

Oh, moço...
Olha que eu me aproximo
Olha que eu me apaixono
Olha que o tempo se perde
Olha que a vida se ganha
Olha que a minha perna treme
Olha que eu durmo nesse colo
Olha que eu me perco nesses braços.

Moço, moço!
Cuidado...
Olha que eu te beijo
Olha que eu te agarro
Olha que eu te roubo...

Moço, moço...
Olha que eu não aviso mais o que vou fazer...

sábado, 19 de agosto de 2006

Rainha de Copas

Eu sou minha própria rainha
E reino só.
E só tenho o reino.
Nele reino,
Nele rio.
Crio,
Recrio.
Nele me expando
E me retraio.
Dona dele sou.
Dono meu ele é.
Ele me preenche,
Ele me abriga.

Eu sou a rainha sem cetro
E sem trono.
Mas tenho uma rede grande
E janela aberta para o nascente.


Mas não te preocupes,
Também há espaço para ti
Seja nas tardes vermelhas de julho,
Seja nos dias azuis de agosto.
Há espaço para ti.
O que protege meus domínios
É apenas essa cerca baixa.
Pule.
A porta está aberta,
A janela também.
Vem.
E, quando quiser, vai.

A monarquia morreu dentro de mim.
Eu me recuso a te ter
Seja como meu domínio
Seja como meu rei.
Continua estando assim
Não te preciso
Mas te quero.

E vem logo!
A tarde é longa
E vermelha...
Demais para uma solitária...

sexta-feira, 4 de agosto de 2006

Eu que não amo ninguém...

Eu fugi.
E olha a que ponto eu cheguei:
não tenho as pedrinhas de brilhante pra ladrilhar a rua pra o meu amor passar.
Eu me transformei nesse monstro egoísta que aqui está caído no chão.
Só. Infinitamente.
Eu sou o corpo e o olhar que grita surdamente.
O que me resta, está sendo gritado agora...
Você não ouve...
E eu grito mais e ninguém ouve...
Eu sou o corpo sem mãos e sem olhos.
Eu sou o gigante que se ajoelha diante da borboleta delicada.
E aqui quedo.
Aqui fico.
A muralha cai.
Cai...
E não estou preparada para o sol.
Eu não sei nadar nas lágrimas.
Mas posso aprender, talvez...
Aprendi tantas coisas inúteis... Treino, concentração...
Sei bordar, sei cozinhar, sei histórias pra te contar...
Versos doces, carinhos...
E essas mãos vazias!!! Olhe! Estão vazias...
Os livros, a experiência... nada serve.
Nada basta se não há ouvidos, nem olhos, nem bocas, nem mãos...
Aqui.
Agora.

Um enorme universo construído que sequer me permite chegar ao outro lado da rua, do estado... ou a qualquer lugar que haja um ouvido.

De que vale?
De que vale?
Se não tenho pedrinhas de brilhante pra ladrilhar a rua para o meu amor passar?
E, caso tivesse, não haveria amor pra passar...
Ninguém se dispõe.

Caso alguém com ouvidos e olhos queira adoçar um pouco sua vida, esquecendo até a dor de vez em quando, procure o gigante que aqui se ajoelha diante da borboleta delicada.

segunda-feira, 31 de julho de 2006

A desconhecida

O que há além do jardim?
Além das tulipas e miosótis,
Além do sol e doce brisa,
Além das delicadezas e pequenas ternurinhas
O que há?

Não me pergunte...
Não me pergunte!
Quando me tiveres conhecido
Verás o sombrio bosque que há.

E o que há além do bosque?
Além das sombras e espinhos,
Além dos galhos secos e retorcidos,
Além do perigo,
Das dores velhas e remoídas,
Dos grandes medos,
Segredos,
Além do teu obscuro
E misterioso “eu”
Dos teus venenos
que fizeram lar do bosque
O que há?

Não me pergunte...
Não me pergunte!
Nem quando me tiveres conhecido
Nem quando tiveres enjoado do jardim
Nem quando enfrentar o bosque
...
Creio que jamais conhecerás o que há além...

Os meus domínios
(Ou o que eu não domino)
que eu não sei explicar
nem entender...
Os meus fardos
E meus tesouros
Que não compartilho
Às vezes por não saber
Às por não querer...

Ah... Esse meu mundo que eu não posso te contar
Basta sentir
Caso queira
Caso possa.

sábado, 29 de julho de 2006

Você consegue se abandonar?
Eu consigo.
Eu me abandonei
Eu me perdi...
no vazio
no cheio
nos ventos e rios
que por aí correm.

Sou folha.
Sou pedra.
Sou pena da asa de urubu
de rabo de pavão
de bem-te-vi
de beija-flor.

Sou flor
do meu próprio jardim
ou seria do teu?
(Se é que ainda existe meu,
teu
ou de quem quer que seja)

Sou raiz.
Cresço no rumo de dentro
Preciso de espaço
dentre outras coisas
que só encontro cá,
dentro.

Sou vasta.
Basta!
Não vai durar...
Não posso captar esse instante
de assustadora expansão.

O espaço
O tempo
As normas
Meus alicerces internos
e todo o resto
se foram...
Sabe se eles vão voltar?
(Eu sei,
mas não me conto,
por enquanto)

Por agora,
estou dentro e fora
de tudo
de nada.
De nada preciso.
Não me contarei nada disso
E não saberei.

Caminhando rente ao precipício

Eu não morri.
Não por completo.
Mas pensei que sim
Dolorosamente.

Me perdi de mim.
Me roubaram (me roubei),
Me expulsaram (me expulsei)
de mim.
Eu não me aceito
em mim.

Viver dói,
às vezes.
Morrer dói,
sempre.
Habitar em mim dói,
sempre.
Nunca estou
quando mais preciso.

Quando mais preciso,
não tenho meu amor,
não tenho o meu abrigo.
Eu não me aceito.

Eu me repudio
Eu me repudio
Eu me repudio!
!
Infrutífera
Incapaz
Insignificante
Para mim
Para qualquer um...

Eu, in, in, in...
Não.
Do lado de dentro.
Não.

Quase morri
Do lado de dentro
Quase morri.
Mas não tenho esse direito
E não morri
Do lado de fora.